Pequeno ensaio sobre o trabalho de Simone Cupello

A imagem e o meio agregativo 

 

Walter Benjamin diz que a fotografia nos permitiu fazer imagens com a mesma velocidade com que falávamos. Por isso, quando surgiu, ela já prenunciava o cinema falado. O cinema, por sua vez, serviu para nos habituar a pôr os órgãos na "segunda técnica", aquela que no lugar do "sacrifício humano" tinha como medida os "aviões controlados por telecomando". Hoje, não há dúvida de que nossa mente está tanto no nosso cérebro quanto inervada em nosso corpo e nos chips de nossos aparelhos. Podemos, inclusive, ser colonizados por esses aparelhos onipresentes, em novas formas de manifestação da velha razão colonial. O trabalho de Simone resiste a essa tendência. Como diz alguma meme, a tecnologia do século XXI é usada para espalhar ideias do século XIX. Se temos os órgãos na "segunda técnica", ainda estamos às voltas com problemas não resolvidos do mundo da "primeira técnica" que cobram seu preço. Barrada em seu desenvolvimento natural, a vingança dessa segunda técnica é servir ao discurso de ódio, à privatização do pensamento em páginas pessoais de internet disseminadoras de fake news, à deterioração do espaço público.

Entre esses problemas da "primeira técnica", poderia ser colocada a traição das imagens, desfeita pela frase "Ceci n'est pas une pipe" na famosa obra de Magritte. O pintor surrealista não estava interessado em nenhuma essência do meio pintura a ser alcançada pela planaridade da tela, tampouco na perspectiva ilusionista, e nenhum artista desfez melhor a traição das imagens, mostrando que ela não é aquilo que representa. A imagem se refere ao cachimbo só para dizer que não quer se passar por ele.

 

O trabalho de Simone também cria, como diz Jacques Rancière, uma "imagem pensativa", aquela que não pretende, arrogantemente, substituir um ser, como um simulacro que não se apresenta como tal. Mas o meio para Simone também não tem uma essencialidade. A imagem é distanciada e a própria materialidade da fotografia é estranhada, como se ela afirmasse que o fundamento mesmo não é uma essência. Ela pode trabalhar, além da fotografia, com outros suportes, como o vídeo. Sua investigação da imagem começou por aquele ofício em que o cinema se manifesta como algo mais material e específico: a montagem. O que é o meio então no trabalho de Simone? Ele parece dizer que quando se parte em busca da origem e do destino não se encontra nenhuma substância, mas a própria pluralidade interna e o caráter auto-diferencial. Por isso o papel fotográfico, de acordo com suas especifidades de cor, textura, porosidade etc., atrai múltiplas formas, as quais derivam de suas particularidades específicas. Mas a matéria nunca é um simples suporte físico. A partir da apropriação das coleções de fotografias, como num ready-made do mundo pós-industrial, Simone opera em relação ao medium de modo não redutivo, mas agregativo, abrindo-o à alteridade. A matéria e a forma se imiscuem porque seus limites nunca foram rígidos. E já não sabemos, nesta investigação, a fronteira entre fotografia e escultura, objeto, instalação, intervenção. Numa experimentação estética que poderia dar "o gosto de outras experimentações sociais e políticas", como diz Jeanne Marie Gagnebin, a artista implode tipologias de dominação e suas supostas noções de pureza, descolonizando as imagens.

Fernando Gerheim