Pequeno ensaio sobre o trabalho de Simone Cupello

O paradoxo como paisagem 

O que mais fazemos é transformar o vivido em imagens, retirando-o do fluxo das coisas em forma de tokens, memes e posts, como fugazes máscaras mortuárias de eternidades 24hs. Simone Cupello pega as imagens e leva-as de volta ao mundo das coisas, como corpos entre corpos. Utilizando fotografias impressas, como no passado recente que já parece remoto, ela cria coisas às vezes num sentido tão literal que assumem a forma de pedras. Leva as imagens, manifestações do mundo simbólico não-linguístico, para o mundo das coisas mudas, mineral.

 

Mas essa opacidade da imagem não se dá em detrimento da transparência através da qual nos emocionamos com uma fotografia de viagem de férias ou festa de aniversário. Algo da realidade "queima" a imagem fotográfica, como disse Walter Benjamin. A vida extraída de seu transcorrer pulsante sem fixador e colecionada em álbuns, salva em arquivos ou retocada com filtros em postagens efêmeras que alimenta o trabalho de Simone pode permanecer, pelo menos em parte, reconhecível.

 

Sua unidade mínima são “maços de fotos”, doados ou comprados, que ela seleciona em subconjuntos por parâmetros temáticos e formais, não pelo encanto anedótico de uma imagem isolada. Em seus trabalhos a imagem mesma, se e quando aparece, é surpreendente e nova como algo outro, como pode ser visto em "Jardim de Yeda". Durante boa parte da vida, a fotógrafa amadora Yeda registrou os jardins das casas que visitava e colecionou essas fotos que, após sua morte, foram parar nas mãos da artista. Com elas, Simone criou um grande manto aéreo em que as imagens são parcialmente identificáveis, mas assumem, juntas, uma presença gravitacional de animal plástico, paisagem orogênica ou varal de secar roupa com uma estranha pele de caça pendurada.

 

Assim como faz da imagem matéria-prima, e não produto final, Simone radicaliza a teoria de que a arte contemporânea é fotográfica. A imagem-traço, indicial, é tomada por propriedades que lhe são inerentes, como o papel fotográfico, em suas várias texturas e tonalidades. Se ela não perde completamente a transparência, sendo identificável seu referente, também ostenta sua opacidade inelutável como um punctum cego. A indexicalidade da arte contemporânea se torna tão radical nos trabalhos de Simone que ela utiliza as próprias fotografias como medium. Bem cultural de presença crescente no mundo pós-industrial, a imagem não é o fim, mas o suporte de novas paisagens, organismos, coisas.

 

O trânsito entre transparência e opacidade da imagem se desdobra em outro: o da matéria com a forma. A fotografia como matéria, em seu estado bruto, e a forma que pode torná-la irreconhecível, com a mesma mudez de uma pedra a esculpir. Acontecimentos que não são de mão única. Eles são reversíveis, matizados, ambíguos. Quem ganha é o espaço de jogo, em que esses trânsitos podem se dar de múltiplas maneiras, e também serem recusados, sendo as pilhas de fotografias transfiguradas pelo simples gesto da artista, que delas se apropria sem alterá-las.

 

Talvez em nenhum de seus trabalhos esses trânsitos sejam tão extremos como nas experimentações de Canyons, da série Virtualidades Matéricas, em que, ao operar os maços de fotos impressas, a artista retorna a uma proposta fotográfica. A imagem é, por assim dizer, esculpida como um bloco unitário. Na era digital, em vez de tratá-la como um arquivo numérico a ser atualizado em telas, Simone criou um dispositivo para tirar uma espécie de fotografia 360 graus desses maços. As pilhas de fotografias são fotografadas e reconstituídas num plano, como uma paisagem virtual. Pilhas de fotos que não existiam aparecem, como fantasmas, nessa passagem entre dimensões. O todo virtual revela aquilo que só na imagem existe, materializando virtualidades. Como a cebola cortada longitudinalmente ao ser observada em sua face plana deixa ver as camadas internas ocultas, nos Canyons a profundidade torna-se superfície. Esse cubismo reloaded é um modo de esculpir, como se fosse concreta, a nuvem em que a era digital desmaterializou as imagens.

 

Imagem topológica de tempo e espaço desmembrados, cada ponto diferente que a compõe é uma tira. Justapostas numa fotomontagem, as tiras criam o invólucro de um espaço-tempo sem aqui e agora, desterritorializado, com o qual esses maços de fotos obsoletas e amarelecidas é confrontado. Se é comum no trabalho de Simone tornar a imagem, matéria, aqui é feito o caminho inverso. As fotos em papel, nas quais todas as marcas são significantes, geram uma imagem. A desmaterialização da imagem contemporânea é tratada de maneira topológica. Da foto material à imagem e desta de volta à matéria, na passagem entre meios quentes e frios, Simone transforma o paradoxo em paisagem.

Fernando Gerheim