IMAGENS LIMITE

A imagem volátil parece a película transparente da pele de tudo, pronta a se dissipar, e, no trabalho de Simone Cupello, ao mesmo tempo corpo, vísceras, respiração. A imagem é devolvida por ela ao mundo de que se alimenta, tornando-se também transitória, perecível, viva. Seja na vivissecção do vídeo "Hitchcock Skin" (2012) ou nas fotografias apropriadas incrustadas em paredes das "Bilocações", trabalho mais recente e que se atualiza a cada montagem no espaço específico, a imagem parece ocupar um entrelugar, ser a passagem entre linguagens. Investigada nesse trânsito, parada ou em movimento, usando fotografia como matéria ou vídeo como salame a fatiar, ela converte uma coisa em outra e vice-versa.

O tratamento escultórico da imagem como “imagematéria" perpassa todos os trabalhos, e é explicitado em “Levitações” (2010), em que as fotografias de um relógio, juntas, formam no sentido de suas espessuras fininhas justapostas a imagem do relógio, numa inversão topológica. De forma irredutível à geometria euclidiana, o tempo converte o plano da imagem fotográfica em tridimensionalidade e esta de volta em imagem.

 

Se a imagem eletrônica é “só tempo”, como disse Nam June Paik, hoje ela se dissipou em nuvem, e pode se colocar, num lance de dados digitais, diante da aporia de se tornar matéria. As esculturas fotográficas de Simone devolvem a imagem ao espaço, permeável não só à arquitetura dos espaços expositivos, mas também ao espaço público urbano, nas intervenções de “Refluxos” (a partir de 2012), e ainda ao espaço da natureza, em "Palea" (2014). A imagem é menos uma presença simbólica ou icônica, que substitui ou encarna um sentido, do que algo vivo entre as coisas do mundo, imediato e contingente, índice de uma imanência aqui e agora sem referente nem destinatário.

 

Ao som de inspiração e expiração, em “Exercícios de Respiração” (2013), fotografias são empilhadas separadas umas das outras por quatro pedras, uma em cada canto, ocultando a imagem e tornando visível, numa instável construção híbrida, fotográfica e mineral, a espessura do próprio papel que lhes serve de suporte. As imagens respiram num equilíbrio silencioso, atravessadas de ar e luz, impenetráveis à linguagem como a pedra.

 

Em “Toca” (2013), escultura fotográfica a céu aberto, cuja forma parece um vespeiro, a imagem se mimetiza na paisagem natural, recua do mundo de sobrecultura e quer se reintegrar no ambiente da natureza. De volátil, torna-se tátil, de tátil, habitat de bichos, sugerindo outro neologismo: imagem + animal = animagem. A imagem é o coração de um animal vivo.

 

Na colagem de fotografias amadoras apropriadas de “Sem título” (2015), em que o lado com imagem é virado para dentro, Simone cria uma espécie de casulo gigante, capaz de conter uma pessoa. O casulo é pendurado no espaço e quando olhamos entre as frestas das fotografias coladas vemos lá dentro, como um voyeur num peep show, o lado da imagem, essas cápsulas de memória, com suas paisagens, personagens e situações, como algo secreto, que cada um vê só. Banal, a imagem oculta que vemos é como uma imagem mental. As esculturas de fotografias de Simone revelam a passagem entre matéria e imagem, o próprio movimento de sua conversão mútua uma na outra.

 

Fernando Gerheim, 2015